Ao lado direito vocês podem escolher o tipo de texto que procuram, dos mais sérios aos mais pessoais.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

Maré cheia

Pude ver de longe o mar,
Tão distante e tão pulsante,
Pude só imaginar.

Quanta vida vai e quanta vida vem,
Tão de repente e tão recorrente,
Vai além.

Olhei-o fixo como viciado,
Foi um dia, foi um mês,
Foi Yolanda, foi Inês,
Com onda quebrando a todo lado.

Cantarolando a maré cheia,
Vento em vela não receia,
Leva o tempo, encadeia,
E durmo calmo, a barriga cheia.
(PINHEIRO, João Pedro Carbonari - Lisboa - 21/01/2019)

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Me segurei, mas não deu

Me perdi.
E perdi a vontade.
Na escolha errada, que foi certa por tanto tempo, me vendi.
E vendi o último pedaço de alma.
Quando a aventura chegar ao fim estarei só.
Somente mais um passo ao lado.
Nunca adiante.
Me adiantei com pressa e cede.
E me afoguei no desespero de saciá-la.
A estrada mudou de rumo.
Deu voltas a me iludir.
Rumou de volta para onde saí.
Um deserto em desconstrução.
Me segurei.
E segurei com vontade.
Na escolha certa, que foi tão errada, me despedi.
E me despi do último traço de calma.
Quando, enfim, eu tiver chegado, estarei só.
Somente mais desgastado.
Nunca realizado.
Como parte, fui inteiro.
Como arte, fui embora.

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Sim

Sem você jamais poderia
Imaginari o céu
Levei para mim
Vestígios de ti
Ideias de um sonhador
Amanhã já vai raiar
Mas não quero
Outro dia sem ti
Raro são os sonhos
Ávidos, risonhos
Eu espero ter teu
Sim
(João Pedro C. Pinheiro - Outubro/2014)

E para evitar um pouco a banalidade dos poemas acrósticos, resolvi musicá-lo.
Desculpem a qualidade da gravação, o pequeno erro no final da letra e qualquer desafinada :)

sábado, 27 de setembro de 2014

Desconstrução

Preciso segurar as palavras que querem sair atropelando umas às outras
O que fora silêncio débil vê-se caótico e desordenado, explosivo
Por entre os dedos esvaem-se as rédeas maltratadas pelo abuso
O que fora sanidade torpe vê-se em desgoverno e descarrilho, desmorona
Desespero e anseio a loucura de saltar das amarras soltas, voar, cair
O que fora domínio cético vê-se calando a mente, pulsando o sangue
A certeza incrédula, vaiada; e a ovação ao incauto, ao reprimido
O que fora segurança bruta vê-se desmontado, guarda nula
Nem a forma segue em ordem sem o toque do incerto
Chega em pé que troca o passo,
Prende a postos
O que fora verso
O que foi avesso
O que lá fora é vasto
In, des, a, ando, ado, auto, ido
Certo de que a porta aberta tem a forca
E a força tem de abrir a porta certa
Imenso, imerso
Incoerente, in corrente
O que fora sentido à solução mundana ao abismo do intangível,
Vê-se roto.

Eu me lembro.
(PINHEIRO, João P. C., 27/09/2014)

terça-feira, 26 de agosto de 2014

Era um sonho

Andava eu por uma rua de paralelepípedos olhando ao redor como turista em dia de festa no pelô. As casas pareciam ter vida conforme os canhões de luz as punham em movimento. Dançavam uma música que somente os corações aflitos ainda escutavam.

Era tarde da noite e ainda sobravam alguns foliões, os tais corações aflitos, em busca de um último banho de lua. Seus passos tortos, suas bocas secas, seus olhos brilhantes. Como quem buscava abrigo caminhei para longe e sentei-me de canto em uma praça quieta, disposto a tomar um último gole de luar e fugir dali para debaixo de meus sonhos.

 E quem me dera estar sonhando a uma hora dessas. Não distante dali um par de sapatos caminhava em seu “toc toc” hipnótico madrugal. Em minha direção, pensei. Pois, em minha torcida por um sonho, onde mais iriam? Eu não tinha o ímpeto de ir atrás, mas a curiosidade me consumiria.

E como carta marcada, por trás de uma arvore dormente, talvez iluminada demais por uma lua zombeteira, saia a dona dos passos ecoantes. Não a via, sentia-a. Meus olhos pesados se fizeram de rogados e esperaram alguns segundos antes de se abrir, para só então me presentear com um rosto empalidecido pela lua e um sorriso avermelhado.

Imediatamente levantei e antes decido em sua direção como se já houvesse feito isso centenas de vezes, mas nunca a vira antes. A distância parecia uma madrasta infiel e punitiva esticando-se comigo a correr. Tomei-a em meus braços como se fosse dócil, toque seu rosto como se fosse ouro, senti seu cheiro como se fossem flores e beije-lhe a boca como se fosse minha.

Abri os olhos como se fosse tarde e cai para trás ao não vê-la em minha frente, não tê-la em meus braços. Sentado no chão risos giram em meus ouvidos, vejo dois lábios rubros e fecho os olhos.

Era um sonho.

quarta-feira, 16 de julho de 2014

Doce ilusão

Doce ilusão que me cobre em desejos
Pedaço de céu que farto em gracejos
Quase intocável, quase inocente,
Me invade, inquieta, pelos meus bordejos
  
Cedo no tempo que corre apressado,
Tarde no espaço, profundo, embaçado,
Incerteza contida, incerteza latente,
Na ponta do lápis, detalhe traçado.
 
Sonho acordado o leve balanço
Inconsequente me largo, me lanço,
Preso na espera, preso na gente,
Quente em seus braços... amanso.
(PINHEIRO, João Pedro C., 16/07/2014 - São Paulo)

sexta-feira, 27 de junho de 2014

Não sou nem um, nem outro.
Não sou de perguntas, nem sou a resposta.
Sou ardência de fogo em brasa, sou leveza de folha ao vento.
Não sou certo, nem estou errado.
Sou hoje, sou agora e não sou mais.
Marco como a cicatriz que se esconde sob a tatuagem, mas não desboto.