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terça-feira, 26 de agosto de 2014

Era um sonho

Andava eu por uma rua de paralelepípedos olhando ao redor como turista em dia de festa no pelô. As casas pareciam ter vida conforme os canhões de luz as punham em movimento. Dançavam uma música que somente os corações aflitos ainda escutavam.

Era tarde da noite e ainda sobravam alguns foliões, os tais corações aflitos, em busca de um último banho de lua. Seus passos tortos, suas bocas secas, seus olhos brilhantes. Como quem buscava abrigo caminhei para longe e sentei-me de canto em uma praça quieta, disposto a tomar um último gole de luar e fugir dali para debaixo de meus sonhos.

 E quem me dera estar sonhando a uma hora dessas. Não distante dali um par de sapatos caminhava em seu “toc toc” hipnótico madrugal. Em minha direção, pensei. Pois, em minha torcida por um sonho, onde mais iriam? Eu não tinha o ímpeto de ir atrás, mas a curiosidade me consumiria.

E como carta marcada, por trás de uma arvore dormente, talvez iluminada demais por uma lua zombeteira, saia a dona dos passos ecoantes. Não a via, sentia-a. Meus olhos pesados se fizeram de rogados e esperaram alguns segundos antes de se abrir, para só então me presentear com um rosto empalidecido pela lua e um sorriso avermelhado.

Imediatamente levantei e antes decido em sua direção como se já houvesse feito isso centenas de vezes, mas nunca a vira antes. A distância parecia uma madrasta infiel e punitiva esticando-se comigo a correr. Tomei-a em meus braços como se fosse dócil, toque seu rosto como se fosse ouro, senti seu cheiro como se fossem flores e beije-lhe a boca como se fosse minha.

Abri os olhos como se fosse tarde e cai para trás ao não vê-la em minha frente, não tê-la em meus braços. Sentado no chão risos giram em meus ouvidos, vejo dois lábios rubros e fecho os olhos.

Era um sonho.

quarta-feira, 16 de julho de 2014

Doce ilusão

Doce ilusão que me cobre em desejos
Pedaço de céu que farto em gracejos
Quase intocável, quase inocente,
Me invade, inquieta, pelos meus bordejos
  
Cedo no tempo que corre apressado,
Tarde no espaço, profundo, embaçado,
Incerteza contida, incerteza latente,
Na ponta do lápis, detalhe traçado.
 
Sonho acordado o leve balanço
Inconsequente me largo, me lanço,
Preso na espera, preso na gente,
Quente em seus braços... amanso.
(PINHEIRO, João Pedro C., 16/07/2014 - São Paulo)

sexta-feira, 27 de junho de 2014

Não sou nem um, nem outro.
Não sou de perguntas, nem sou a resposta.
Sou ardência de fogo em brasa, sou leveza de folha ao vento.
Não sou certo, nem estou errado.
Sou hoje, sou agora e não sou mais.
Marco como a cicatriz que se esconde sob a tatuagem, mas não desboto.

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Sobre o ódio politizado ao Carnaval

Réu confesso: já fui odiador de carnaval, mas, diferente do que vejo hoje, meus motivos eram puramente a bagunça, a barulheira e, principalmente, as músicas (exclua disso as marchinhas).

Textos ovacionados, e que talvez em outro momento eu também ovacionasse, de críticos do carnaval, tratam-no como o grande agente causador de problemas. Alguns até falam em acabar com o carnaval e se vangloriam de tamanha ousadia e sacrifício.

Infelizmente, do meu ponto de vista, o grau de miopia dessa opinião é elevadíssimo. O Carnaval não é o agente dos problemas; os problemas do Carnaval é que são as consequências, efeitos colaterais, de uma infraestrutura sociocultural negligenciada. E da mesma forma como um câncer, não se tratam apenas os sintomas, mas as causas.

A informação rodando por ai dos absurdos R$ 2 Bilhões de investimento no Carnaval não veio acompanhada de outro dado: 2013 bateu o recorde de arrecadação de impostos, foram R$ 1,7 TRILHÃO (informação da ACSP). É dinheiro para caramba! Os R$2 Bilhões também são, mas deu para perceber que não é ai que mora o problema?

Não é curando o Carnaval que alguma coisa vai melhorar. Ele acontece o ano todo sem ninguém perceber: baladas, micaredas, pancadões, superfestas e jogos universitários... a diferença é que em fevereiro/março é feriado , tem nome, fantasia e geralmente sua mãe quer e pode participar.

Acho que todos tem sua opinião sobre os problemas políticos, sociais, econômicos e culturais brasileiros, mas descarregar um ódio politizado sobre o carnaval é aceita-lo como bode expiatório e deixar que o “ópio do povo” seja seu também, afinal serviu para desviar sua ira.

Ninguém precisa gostar do Carnaval, seja pela música, ruas fechadas, sujeira, barulho, mas não gostar politicamente, para mim, é visão curta.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

MORTE

Um manto negro e um sorriso zombeteiro
Ela vem tão certa como a noite e deixa vazia a imensidão
Não há ordem, não há plano, não há nada
Segue torpe espalhando o caos aos inconsoláveis
Involuntariamente e incessantemente e impunemente
Faz-nos fracos e tementes, como crianças no escuro
Breves fugitivos de uma condição inerente
Surpreendentemente afasta-nos da fuga e aproxima-nos de si
Valor velado, mas pesado em ouro para tamanha insignificância
Pois a olhe nos olhos e veja que não o persegue, pois é cega.
Que ela passe a nos servir e não nós a essa madrasta incoerente
Celebremos a memória e a vida, ao invés de chorarmos para a Morte.
(PINHEIRO, João Pedro C. - 18/02/2014)

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Bloqueio Criativo

Olho por horas um monitor estático e sem vida
Abafo o som do exterior que me invade e distrai
Fecho os olhos atrás de um momento de inspiração
E me afogo nesse interior de distrações inférteis
Respiro fundo em memórias que já foram transcritas
Repito ideias que já tiveram seu momento de glória
Uso os mesmos preceitos, as mesmas palavras
Os mesmos casos imperfeitos, as mesmas experiências passadas
Surge uma rima a toa que morre no próximo verso
E lá estou eu fazendo outra vez o processo inverso
Bato outras teclas, rabisco outros papeis e fico pela metade
Backspace, borracha e a metade que tinha, sumiu
Olho por horas um monitor estático e sem vida
E começo do zero outra vez
(PINHEIRO, João Pedro C - 26/12/2013~)

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Quem somos nós?

Às vezes fingimos ser o que achamos que queremos ser. Enquanto isso, vamos deixando quem realmente somos aos poucos para trás.

Às vezes o que somos é apenas fingimento de tanto querermos ser aquilo que achamos que deveríamos.
Às vezes achamos que, se não somos, deveríamos fingir para, na insistência, nos tornarmos aquilo que queremos ser.
No final, é tudo porque nunca condizemos com quem gostaríamos de ser.
Mas quem nos disse que gostaríamos de ser? Só nos disseram que gostariam que fôssemos.
Quem realmente somos nós?
(PINHEIRO, João Pedro C. - 22/11/2013 - 15:48h)